O Certificado de Energia Renovável e a precificação do carbono

Precisamos de um sinal de preço alto da tonelada de carbono para causar impacto, e depois algo crescente, se quisermos atender o Acordo de Paris.

Em junho de 2018, eu participei de dois eventos internacionais sobre precificação de carbono, um organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), e outro, organizado pela Centros de Estudos em Sustentabilidade (GVCEs), da FGV.  Participaram dos eventos representantes de vários países da America Latina, Estados Unidos e Europa, Instituto Clima e Sociedade, Ministério da Fazenda, Banco Mundial, Brasken, Engie, Siemens, entre outros.  

A conclusão de ambos os eventos é que a precificação de carbono já é uma realidade em 45 países e deve ser implementada pelo Brasil nos próximos três anos. Chile, Colombia, México e Argentina, já tem um sistema de precificação de carbono em andamento. De acordo com o Banco Mundial, o preço da tonelada de carbono tem variado de $10 a $40 dólares. A principal discussão da atualidade, aqui no Brasil, é sobre como será feito a cobrança, se via tributo ou imposto, ou através de regras de mercado, como o Sistema de Comércio de Emissões, também conhecido como Cap & Trade.  

Entre os setores da economia que mais devem ser impactados, estão aqueles intensivos em emissão de carbono como o setor siderúrgico, indústria de cimento, papel e celulose, alumínio e transporte. O setor de energia também merece atenção, pois tem aumentado sua participação, haja visto o aumento do consumo de energia, segundo estudos realizados pelo GVCEs e parceiros. 

A precificação de carbono tem como objetivo orientar e levar o mercado e empresas para inovação ou para uma economia de baixo carbono. Neste sentido, aqueles que souberem aproveitar a oportunidade para criar produtos com baixo carbono, terão alguma vantagem competitiva. 

A indústria de carros 100% elétricos no Brasil triplicou as vendas no ano passado e é um bom exemplo de um produto que está sendo modificado e adaptado para operar numa economia de baixo carbono. 

Da mesma forma, no mercado de construção sustentável, já existem mais de 6.500 green buildings certificados no mundo pelo sistema LEED - Leadership in Energy & Environmental Design, demonstrando uma preocupação das empresas do setor em se trabalhar com produtos mais eficientes e menos intensivos em carbono. 

O Brasil possui um enorme potencial para se destacar numa economia de baixo carbono. O nosso país apresenta capacidade de geração de energia solar e outras fontes renováveis maior do que praticamente todas as outras nações no mundo. Sendo assim, um mecanismo de precificação de carbono no Brasil poderia contribuir para acelerar ainda mais a transição energética rumo as fontes renováveis.

Para termos uma idéia do impacto positivo das energias renováveis em relação a precificação do carbono, a simples aquisição de Certificados de Energia Renovável (RECs), ou mesmo a instalação de geradores fotovoltaicos nas instalações da empresa, podem zerar algumas toneladas de carbono provenientes do processo de geração e consumo de energia. 

Se por um exemplo, uma empresa do setor industrial consumir por volta de 20 GWh/ano de energia em uma de suas fábricas, isso representaria o lançamento de aproximadamente 1.800 ton de CO2eq/ano na atmosfera. Considerando o preço da tonelada em torno de $20 dólares (média), a empresa teria um tributo de carbono próximo de $ 36.000/ano, referente apenas ao escopo de aquisição de eletricidade do GHG Protocol. Haveriam outros tributos de carbono relacionados aos escopos 1 e 3 do GHG, mas que não são objeto desta noticia.

Uma forma simples e rápida de compensar ou de reduzir esse tributo de carbono associado a energia, seria através da aquisição de RECs. Para 21.000 MWh/ano de energia consumida, seriam necessários 21.000 RECs/ano, com preço em torno de R$ 42.000 reais/ano. Portanto, a compra dos RECs seria muito mais vantajosa do que ter que pagar os R$ 144.000 reais/ano referente as 1.800 toneladas de carbono.

Certamente, existem outras combinações e possibilidades para zerar as emissões de carbono, como por exemplo, realizar a comprar de energia no mercado livre atrelado aos RECs, ter uma frota de 100% carros elétricos, ser um auto-produtor independente de energia, ter a sua própria fazenda solar.

O fato é que a precificação de carbono é um caminho sem volta e não deve ser vista como mais custo, já que estará atrelada a metas mais abrangentes que trarão benefícios para toda a sociedade.